(Post reeditado da plataforma antiga. Publicado originalmente em março/2008)
Ultimamente as FARC têm ganhado evidência mais do que conseguiu habitualmente nos últimos anos na imprensa internacional. De dezembro para cá, com a libertação de uma leva de prisioneiros e recentemente com a morte de Raúl Reys, um de seus comandantes, a guerrilha colombiana voltou a tona depois de um período de quase ostracismo.
O movimento guerrilheiro colombiano surgiu das lutas revolucionárias que em 1948 faziam resistência à elite orligárquica que achicalhava o país andino e unia liberais e socialistas em busca de reformas políticas. Os primeiros abandonaram o front quando tiveram seus interesses parcialmente satisfeitos e temendo o avanço comunista na luta. Foi quando em 1964 surgiram as FARC, de um grupo de rebeldes que refugiou-se na selva fungindo a uma truculenta repressão do governo. O grupo comandado por Manuel Murilanda adotou posição explicitamente de esquerda e lançou em seus estatutos, ideais muitíssimos louváveis. Sob a bandeira do marxismo, tinham objetivos de tranformações profundas e necessárias à sociedade colombiana. #/#
Quarenta anos depois as coisas continuam tais como antes. Os mesmo grupos continuam a governar o país e os homens de Murilanda parecem ter esquecido de fazer a revolução. Circunstâncias que dão margens a questionar o caráter ideológico da guerrilha e se há mesmo uma luta por ideais na Colômbia. Afinal, querem de fato a vitória, os guerrilheiros?
Tirar os olhos maniqueístas do conflito colombiano, talvez seja a melhor maneira de entender por que o mesmo perdura por tantos anos. São muitos os jogos de interesse e poder envolvidos numa guerra que não faz vencedores ou perdedores, senão aqueles que são vítimas.
As FARC são uma verdadeira instituição paralela na Colômbia e parecem não fazer questão de dá cabo à revolução que propõem para não por em risco os privilégios que detém nas áreas que dominam atualmente. Por outro lado, não há interesse do governo oficial em liquidar a guerrilha e perder a razão de ser dos para-militares que apóia, e que movimentam parte da economia Colombiana com o narcotráfico.
O conflito colombiano institucionalizou-se no país com uma interdependência entre governo e guerrilha, onde alguém fatura economicamente com a guerra, e a nenhum dos lados interessa o desfecho. Soma-se a isto o interesse norte-americano em ter um pretexto para manter um braço armado na América do Sul, que alcance todas as riquezas minerais da Amazônia, e o melhor deles no momento é a guerrilha colombiana.
Eu sinceramente gostaria de encontrar nas FARC um foco de resistência verdadeiramente revolucionário, mas confesso que as perspectivas para mim, não são muito otimistas. O gosto pelo poder desvirtua ideais. E as FARC parecem ter conseguido a parcela suficente desse leviano prazer, para esquecer os motivos reais pelos quais lutavam.
As guerras as vezes são necessárias. Elas são como motores que impulsionam a marcha da história, sobretudo quando motivadas por razões como as que levaram a criação das FARC há quarenta anos. Mas quando estas razões perdem-se por interesses outros, tornam-se destituídas de sentido e no caso da Colômbia, abre algumas lacunas: a quem interessa, enfim, o conflito que desestrutura e ceifa tantas vidas?
A resposta, talvez, pode ser chave para entender o conflito andino.